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OS DESAFIOS DO PT E DO GOVERNO WAGNER
Autor: Deputado Yulo Oiticica
Data: 10/11/2006

 

“Animai-vos, ó, bahiense, é chegado o tempo para vossa ressurreição, sim para que ressuscitem do abismo da escravidão para levantar a sagrada bandeira da liberdade”.

(Manifesto da Revolta dos Búzios. 1798). 

 

O escritor José Saramago, certa vez, disse que a Esquerda o decepcionara muitas vezes, já que sendo a portadora das grandes esperanças de um mundo sem opressão, dominação e exploração, e dos valores humanísticos de Liberdade, Igualdade, Fraternidade e Justiça, muitas vezes falhara em conquistar estes objetivos, pois, o que desperta grandes esperanças traz em si o potencial de decepcionar. Já a Direita não pode decepcionar, pois dela não se espera nada.

Este é o retrato da situação política e social da Bahia após a vitória de Wagner. Enormes esperanças foram despertadas no estado e no país, a alegria contagiante nas ruas demonstrou que a vitória de Wagner foi uma catarse para a Bahia e para o Brasil.

Ao PT e ao governo Wagner, esta colocado o desafio de administrar as esperanças e anseios despertadas após a vitória. Isto não significa desconhecer o papel crucial dos aliados na vitória, mas, não há como negar que o partido do governador eleito tem uma responsabilidade fundamental.

Se pudermos apontar algo em que o carlismo foi competente, com certeza, seria na repressão das demandas sociais, políticas e libertárias do povo baiano. Sem dúvida, a demanda reprimida é o principal desafio posto para o PT e Wagner. Ela se dá em terrenos distintos, mas que se articulam e completam. Assim temos: a repressão da demanda simbólica, do funcionalismo público, dos poderes e instituições governamentais, por cidadania e inclusão social e dos movimentos sociais.

Simbolicamente, a representação do carlismo está fincada em três pilares, a gestão tecnoburocrática “competente” do estado (em verdade o aparelhamento da máquina estatal pelo grande capital privado), o clientelismo e a truculência “travestida de amor pela Bahia”. A Bahia disse não a tudo isso, e nas ruas sentimos a sede de participação do povo, por isso temos que criar canais para isso. Não podemos “pagar na mesma moeda”, as perseguições e os desmandos que sofremos, mas também não podemos negar ao povo baiano o direito de saber onde o dinheiro dos seus impostos foi gasto e em benefício de que grupos e pessoas. A transparência, a civilidade, o diálogo, o debate e o combate às injustiças sociais, têm que ser o paradigma do nosso governo.

O funcionalismo público baiano seguramente esta entre os mais mal pagos do país, além disso, a máquina estatal foi destroçada pela falta de concursos públicos, pela terceirização indiscriminada e irresponsável (especialmente o REDA), pelo aparelhamento político, pela corrupção e má gestão, enfim pela rapina neoliberal perpetrada contra o Estado baiano. A justa pressão do funcionalismo público baiano se chocará com a situação difícil das finanças públicas, a falta de capacidade de endividamento do estado e as grandes demandas sociais e por serviços públicos, por esta razão o PT e o governo Wagner terão que dialogar permanentemente com este setor.

O Legislativo, o Judiciário, o Ministério Público e a Defensoria Pública entre outros, foram tratados a pão e água pelo carlismo, portanto a perspectiva de um governo democrático e popular desperta o anseio de recuperação de prerrogativas, como a melhoria das condições de trabalho, ampliação do quadro e expansão da atuação. As demandas, por mais justas que sejam não serão realizadas, nem com a rapidez e amplitude desejadas, o que exigirá diálogo e negociação permanentes, demonstrando o relacionamento respeitoso, sério e honesto que deve permear a relação entre o executivo e os demais poderes e instituições da Bahia.

A Bahia possui mais de seis milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza, por si só, este número chocante, nos remete ao nosso compromisso fundamental de combater esta tragédia social. Universalizar os serviços essenciais, combater a fome, o desemprego, o analfabetismo, permitir que milhões de baianos saiam da miséria a que estão relegados, no quadro de dificuldades financeiras, sabotagem política e oposição oligárquica e midiática, além de administrar as esperanças e ansiedades dos “de baixo” que desejam, finalmente, ter vez e voz. Isso vai exigir do PT e do governo Wagner uma imensa capacidade de negociação parlamentar e social, paciência, maturidade, humildade e foco estratégico.

Já os Sem-terra, sem-teto, pequenos agricultores, os movimentos sindical (especialmente o do funcionalismo público) e estudantil, entre outros, foram duramente reprimidos pelo carlismo, portanto, é natural que exista um aumento das reivindicações e mobilizações sobre o governo. O movimento social não só tem o direito, mas a obrigação de lutar e pressionar governos, e com mais razão ainda se o governo é nosso. No entanto, por nossa experiência e inserção nos movimentos, estamos qualificados a estabelecer um diálogo nunca antes experimentado. Mas, apenas dialogar com os movimentos é pouco para a tarefa histórica que foi colocada para o PT e o governo Wagner. Temos que apresentar uma política que construa a governabilidade não só no parlamento, mas com os movimentos sociais e o povo, pois não há dúvidas que a oposição na Bahia será mais virulenta e mais impregnada de ódio de classe do que a sofrida pelo presidente Lula.

Este quadro traz a necessidade de uma reflexão para o PT: temos que estar à altura desta tarefa histórica, ser maduros, sem deixar de defender nossas concepções, focar os objetivos estratégicos, construir e defender o nosso governo, sabendo que temos que avançar na trilha da transformação social, da igualdade, liberdade e fraternidade, mas com a consciência que ainda estará aquém do nosso sonho de sociedade.

Viva a Bahia! Viva a liberdade!

 

Yulo Oiticica

Deputado estadual -Líder da bancada do PT- Bahia).

 
 
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