“O desafio da modernidade é viver sem ilusões, sem se tornar desiludido" Antonio Gramsci
Por muitas décadas perdurou na cabeça da população latino-americana e brasileira a idéia de que mudar os governos não valia a pena, porque quem entrava no poder era igual a quem havia saído. Só que por de trás desta aparente sina, uma enorme onda vermelha começava a ganhar volume. E esta onda começou a impulsionar uma espécie de barco, que formou uma tripulação que insistia em dizer que o poder emana de todos os lugares. Eram homens e mulheres que navegaram durante muitos anos nas margens da sociedade, por entre vielas, becos, travessas, guetos, vilarejos, povoados, assentamentos e sindicatos, associações de bairro e movimentos sociais. E foi desta nau que surgiu o Partido dos Trabalhadores (PT), que uniu forças, e mostrou nos últimos 27 anos que a formação deste bloco histórico não veio por acaso, nem tão pouco pela ação isolada de uma cúpula de anciões.
Não é por mera mobilidade de uma fração “poderosa” e geograficamente bem posicionada no mapa do poder, que garantiu ao PT a reeleição do presidente Lula, a vitória em cinco Estados, 84 cadeiras na Câmara Federal e a ampliação da maioria das bancadas legislativas nos seus respectivos Estados. As últimas eleições demonstraram que o projeto nacional do PT passa inevitavelmente por todas as regiões do país. Tal reflexão, primeiro, vai de encontro ao recorte tendenciosamente erguido pela elite raivosa e pelos grandes conglomerados de mídia, que entoaram em alto e estridente som que o Brasil estava dividido politicamente. Mas não foram essas as impressões deixadas pelas urnas. O Brasil, sem dúvida, estava fragmentado, mas, pela falta de coerência dos investimentos de outros governos, que impuseram um abismo social entre os Estados, separando economicamente o Sul do Norte. Porém, é indiscutível que a ascensão do partido no Nordeste também denota um esforço consciente dos respectivos diretórios estaduais, que mantiveram o leme da embarcação petista focada na inversão de prioridades do governo, tencionando o olhar do partido e dos ministérios para as regiões mais abaladas pela política excludente e neoliberal da direita.
Esta leitura da realidade emerge a partir da afirmação dos valores do partido, que mesmo diante da adversidade conseguiu sustentar firmemente a essência da luta de classes. E foi esta bússola que indicou o norte ao PT. E este é o caminho que as condições históricas apontam para o partido, que não é senão o mesmo curso traçado na fundação do PT: o caminho das margens da sociedade, ao lado da imensa massa invisível, porém, organizada, que movimenta e que atualiza o conflito de classes no Brasil, na América Latina e no resto do mundo. Por isso, o partido não pode redimensionar a sua orientação política a partir de uma lógica simplista, que põe um projeto nacional à mercê de um embate entre regiões do país. O fato do PT ancorar parte de suas forças num lado do Brasil não impede (e nem deve) travar a locomotiva socialista dos trabalhadores, que vem expandindo seu campo de influência sobre as massas a cada dia.
É refutável toda tentativa de anular o longo processo de acúmulo de forças que perpassou a história deste instrumento político, que balizou a sua luta originariamente na desconstrução do Estado Burguês de Direito a partir dos ideais da classe operária. E a decisão de operar por dentro desta lógica partiu do princípio de que extingui-la e inaugurar uma nova só seria possível por intermédio dela mesma. Portanto, não são as mudanças políticas que a democracia brasileira vivencia que mudarão a matriz ideológica do PT. Nem as influências pós-modernas em curso no cenário internacional, em que o crescimento econômico nacional prevalece sobre o desenvolvimento sustentável de toda a humanidade. Porque o Brasil que queremos não é uma nação guiada pela mão livre do mercado, nem tão pouco um país que sustente o dogma do crescimento acima da necessidade de distribuir mais para crescer com sustentabilidade e em parceria com outras nações.
Existem princípios que perpassam todos os horizontes do partido e eles não podem e nem devem ser adaptados a uma realidade concreta, já que esta não é senão conseqüência da realização destes princípios na prática. É claro que o rumo desta história precisou conviver com diferentes quadros históricos. De um lado, porque as numerosas vontades individuais em ação na história produzem, na maioria das vezes, resultados inteiramente diferentes dos resultados desejados, e, freqüentemente, opostos a esses resultados desejados. Mas não são os erros que irão diminuir um projeto de reconstrução dos valores da sociedade que o PT vem implementando ao longo dos anos. Por isso, uma das principais pautas do 3º Congresso deve ser: definir as forças motrizes que movem este projeto, isto é, as forças que "põem em movimento povos inteiros e por sua vez, em cada povo, classes inteiras; e isso... através de uma ação durável e que resulta em uma grande transformação histórica", certamente completaria o bom e velho Engels.
Algo capaz de transformar este sentimento de desgaste e cansaço que tomou conta da população, e que iria se converter mais tarde no declínio da política ortodoxa da elite neoliberal implementada ao longo dos anos no país. As pessoas passaram a enxergar a partir de então uma transformação oriunda do seu próprio seio. Uma alternativa para o fim deste processo de sucateamento e privatização do Estado. A primeira resposta veio em 2002, com a vitória do companheiro Lula nas eleições presidenciais. E a confirmação de que a arquitetura do poder ganhou realmente um novo desenho foi dado nas últimas eleições, em que o PT não somente reelegeu o presidente Lula, como também conseguiu vencer em mais cinco Estados, com destaque para a vitória capitaneada pelo companheiro Wagner na Bahia. Essas conquistas criaram um novo cenário, e o PT, inevitavelmente, precisa estar preparado para enfrentá-lo. E o 3º Congresso será, talvez, um condutor desta onda histórica que o PT ajudou a levantar, criando um espaço de reflexão baseado entre o que poderia ter sido feito e não foi, e o que ainda precisa e pode ser feito dentro e fora do partido.
É sempre bom lembrar que as mãos que erguem e mudam o curso das velas desta nau são de homens e mulheres que sonham um dia navegar por todos os cantos do mundo sem receio. Feito um pescador que lança sobre o mar a sua rede e espera sem preocupação que ela se encha de alimento. Não pela vontade de um homem, mas pelo empenho de todos que sabem que o mar é de todos. Assim como o PT.
Sócrates Santana é jornalista filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT) do município de Lauro de Freitas, Bahia. |