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A coerência da mídia
Autor: Emiliano José
Data: 19/11/2007

 
 
 
 
O governo Lula tem sido absolutamente democrático em relação à mídia. Este é o primeiro ponto, para que não pairem dúvidas quanto ao ambiente em que vivem os meios de comunicação no Brasil. O segundo, sob outro ângulo: não há dúvida de que a mídia brasileira tem uma posição visceralmente contrária ao governo e de modo particular ao presidente Lula. Uma posição que deitou raízes históricas na primeira eleição que Lula disputou, em 1989, que se manteve coerente em todas as demais e se acentuou quando houve a vitória de 2002.
 
Faço a ressalva, para evitar mal-entendidos, que quando falo da mídia refiro-me às empresas de comunicação cujas sedes localizam-se no Centro-Sul, que não vou nem nominar porque por demais conhecidas. E faço outra ressalva: a de que na mídia impressa, aqui e acolá, também no Centro-Sul, há uma ou outra exceção, entre as quais, e aí nomino, CartaCapital e Caros Amigos.
 
E uma terceira observação: a de que, nas últimas eleições, como reação a esse lado nitidamente partidarizado da mídia brasileira, desenvolveuse, particularmente no jornalismo eletrônico, um discurso que poderíamos chamar de contrahegemônico, proveniente de alguns profissionais que não se conformaram com tal procedimento.
 
Podem ser lembrados Mino Carta, Paulo Henrique Amorim, Luís Nassif e Bob Fernandes, para citar alguns. Com suas análises, escancaram a cobertura absolutamente parcial da mídia brasileira das últimas eleições, além de demonstrarem o papel ativo dela na construção da crise entre 2005 e 2006.
 
Costumo dizer que essa herança vem de longe.
 
Vem da Casa Grande. A mídia brasileira, sempre lembrando que a circunscrevi devidamente, cultiva uma ideologia vinculada aos privilégios seculares deste País. Foi assim com Getúlio, quando a mídia estava por trás de todo o golpe que se armava contra o presidente. Foi assim com o golpe de 64, quando os barões da mídia se colocaram claramente a favor da implantação de um regime que depois vai perseguir a própria imprensa.
 
Foi assim com a ditadura, quando assumiu um modo complacente de com ela se relacionar, como diria o professor Bernardo Kucinski.
Modo complacente, alguns. Porque uma Rede Globo era uma espécie de diário oficial da ditadura militar. E depois ela amou Collor, inebriou-se com Fernando Henrique, até porque os dois correspondiam à visão que ela tinha sobre o Brasil e o mundo. O último viveu o melhor dos mundos durante os seus oito anos de mandato.
 
Essa posição, e estamos tratando de 1954 para cá apenas, foi de uma coerência exemplar, mas inegavelmente radicalizou-se quando o operário tornou-se presidente.
 
A Casa Grande não podia aceitar isso. E fez e faz de tudo no sentido de desqualificá-lo e quer, a toda hora, constituir-se como a principal voz de oposição política ao governo e ao presidente. Até agora, no entanto, vem sendo derrotada por uma opinião pública cada vez mais cidadã, e será esta, com suas intervenções, que poderá oxigenar a imprensa brasileira, tornando-a menos partidarizada e mais capaz de seguir os seus próprios manuais, tão desrespeitados ultimamente.
 
** Artigo publicado na Página de Opinião, do Jornal A Tarde, dia 19/11/2007.**

 
 
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