A visão de semiaacute;rido é comumente associada à seca, pobreza, fome, e muitas outras mazelas sociais. Sem dúvida, a carência de políticas hídricas na região e as ações emergenciais são problemas históricos. Ao longo dos anos, políticas assistencialistas construíram uma verdadeira "indústria da seca" na região, que possui 265 municípios e representa mais da metade da população e do território baiano. Trata-se de um conjunto antigo de ações que manipularam os recursos públicos e que criaram a cultura da seca, muito vinculada à imagem do carro-pipa.
Ou seja: uma cultura de dependência, não de emancipação dos trabalhadores rurais.
Aos poucos, contudo, por intermédio do estreitamento das relações entre o governo e a população local, percebemos que não é apenas possível conviver com o semiaacute;rido, mas produzir riqueza a partir desta terra em que as coisas não são dadas, mas conquistadas pela organização popular. Um bom exemplo é a construção das cisternas.
Elas são feitas em parceria com a população rural de baixa renda que sofre com os efeitos das secas prolongadas, que chegam a durar oito meses ao ano. Nesse período, o acesso à água normalmente ocorre por meio de barreiros, açudes e poços que ficam a grandes distâncias e possuem água de baixa ou baixíssima qualidade.
Isso provoca várias doenças nas populações que se vêem obrigadas a consumir essa água. Com a construção das cisternas, podemos diminuir o problema da sede e ter água de qualidade no quintal de casa; assim como eliminar, também, os carros-pipas, exceto em situações extremas, e, principalmente, elevar a auto-estima dos trabalhadores rurais, que participam ativamente da construção das cisternas e desta nova maneira de conviver com o semiaacute;rido.
Mas, é preciso avançar. Por isso, serão investidos R$ 1,7 bilhão ao longo desses quatro anos – um montante jamais aplicado na história da Bahia – para construir 100 mil cisternas de placas para consumo humano até o fim de 2010. Cada vez mais o esforço deve ser massivo e plural. É necessário mobilizar os estudantes da zona rural sobre o dia-a-dia no semiaacute;rido, criar políticas públicas que destaquem as belezas e riquezas da região, assim como fortalecer uma rede de comunicação que estimule a criação de soluções novas para problemas antigos dos moradores do semiárido. Desta forma, iremos evitar a repetição de erros que foram ideologicamente preparados para serem cometidos no passado.
Com a implementação de estruturas adequadas, podemos inverter a lógica da dependência e de ações incipientes atreladas ao governo, por políticas permanentes do Estado. Isso significa extinguir a idéia de combate à seca e inaugurar uma nova relação entre a terra e o homem.
Porque, quem experimenta pisar naquele chão e conversar com a gente que arrasta a sandália nele, logo descobre que a solução não vem de fora, mas do que eles pensam e vivem.
* Yulo Oiticica é Deputado Estadual (PT/BA) e membro da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa da Bahia |